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pedras para poesia a mao

 

__A força destes pequenos versos vem de um bom humor inteligente, de quem nos enxerga nas posições que chama o fazer graça do pisar torto na vida. O texto de Pedro Marques tem o frescor de quem acaba de olhar e ver. De quem faz isso sem pena, sem o determinismo unilateral e com a eutrapélica virtude de saber sorrir ao cair de bunda no asfalto.
[José Carlos de Almeida Filho, prefácio de Em Cena com o Absurdo, 1998.]

__A conclusão é: insista, pois com certeza acabará encontrando o caminho certo, se é que já não o encontrou e eu não percebi, porque ando muito afastado dos atuais fazeres poéticos.
[Antonio Candido, sobre Em Cena com o Absurdo. Carta, 2000.]

__O certo é que senti que nos poemas havia dois registros entremeados: um, lírico; outro, irônico ou satírico. O resultado é um texto que se corrói a si mesmo e deixa um travo estranho na boca.
[Paulo Franchetti, sobre Em Cena com o Absurdo. Carta, 2005.]

__A interação do poeta com o mundo real, registrado notadamente na feição mais trivial, rasteira e cotidiana, e até chula, enfileira Pedro Marques na linhagem (ou no cardume?) de uma geração de poetas de um lirismo anti-lírico, amoldado ao humor e à ironia, à facécia e ao riso. O poeta brinca com os temas, usa imagens oníricas e insólitas num tom de zombaria, salta da expressão contundente ou lacônica para o verso desdobrado. Uma determinação lúdica lhe cadencia os passos de observador do mundo e da vida, que inala os odores dos instantes, e capta as suas cores e rumores, e ainda as emoções fugidias.
[Lêdo Ivo, prefácio de Clusters, 2010.]

__Isso para dizer que é por dar voz a sensações, ideias e sentimentos, cuja natureza é ao mesmo tempo produzida e mal captada coletivamente, que esses poemas se livram de um suposto compromisso ideológico com o mundo. Aqui, o protesto contra o utilitarismo, a reação contra a coisificação da sociedade, não é um traço de gênero, revelador de algum empenho particular, mas uma solicitação constante da individualidade que, ao invés de rancorosa, vive, transforma e se alimenta dessa mesma coletividade. A meu ver, reside nessa tensão específica a força central desses poemas.
[Caio Gagliardi, posfácio de Clusters, 2010.]

__As palavras se aglomeram, vêm durante a formulação do texto (linear ou não), numa situação específica, irrepetível. Um poema acontece em tais circunstâncias. Um poeta está imerso nesta criação fractal, amalgamando um vocabulário comum para expressar-se sobre um algo que vai ser compartilhado, mesmo quando pense que não escreve para ninguém… O poeta, como o cientista, qualquer criador, é um ser plural, um porta-voz que ousa expressar-se enquanto tal. Um poema é um acontecimento histórico.
[Antonio Miranda, sobre Clusters. Poesia dos Brasis, 2011.]

__Antes de reunir seus poemas neste primeiro livro, Pedro Marques já vinha de uma longa convivência com a poesia, não apenas como poeta, mas como editor – de revistas (Salamandra, Camaleoa e Lagartixa), sites, antologias -, como professor e pesquisador, tendo publicado, também pela Ateliê Editorial, Manuel Bandeira e a Música (2008). É essa convivência que se faz notar nas dez partes que compõem Clusters. A proximidade do estilo é com nossa tradição modernista, inclusive no modo de temperar o lirismo com a ironia é, por vezes, com uma espécie de humor comedido, de ar propositalmente ingênuo ou “inocente”.
[Annita Costa Malufe, sobre Clusters. Revista Cult, 2011.]

__Eu me rendo a uma novidade que, confesso, não esperava que coubesse logo ali, de início, naqueles poucos versos, e isso me perturba agudamente, é estranho, percebo que reli o “mesmo” poema várias vezes, como se a releitura não me desse outros modos e as várias maneiras de senti-lo. De modo que, no fundo, penso já se encontrar concentrada ali tudo, ou muito já exposto de antemão numa composição feita para uma única leitura, e em verdade, isso é fazer um poema (digo, um único e imortal poema), isso é estilo em poesia, essência e plural, conjunto e isolação (…).
[Marcelo Beso, sobre Clusters. Site Ateliê Editorial, 2012.]

__Em Clusters, há preciosidades, tais como “À espera real dos bárbaros” que, delicadamente, desvela ambientes de terror, desde os mesopotâmios, passando pelas guerras modernas e pelo capitalismo predatório – tudo em linguagem básica, sem pirotecnias. É como se o poeta pincelasse o que vê, acrescentando ao seu esboço uma falsa indiferença que o salva do melodrama.
[Cida Sepúlveda, sobre Clusters. Site Ateliê Editorial, 2013.]

__Clusters, lançado pela Ateliê, como o nome já anuncia, é uma espécie de ramalhete, de cacho capaz de abrigar todos os sotaques, todas as estéticas, algo vivo, coisa bem deste século de indefinições. Seus poemas (…) partem do lirismo e chegam à descrença plena, passando por momentos de pura piada. Em outras palavras, podemos falar em renovação vocabular, em reinvenção do verbo. Mas não se pode deixar de perceber as profundas e sólidas raízes modernistas que sustentam o livro como um todo. Este amplo equipamento de influências está a serviço de uma lírica cotidiana, que fala de tragédias e injustiças, dentro de uma atmosfera quase absurda.
[Maurício Melo Júnior, sobre Clusters. Leituras – TV Senado, 2012.]

__Há blocos contendo séries de poemas designados por números, como assumindo sua vinculação. Outros trazem títulos ou subtítulos que ora os aproxima, ora os afasta do tema central. E há o caso de “Quebradeira”, poema isolado/expandido entre as séries múltiplas. As sugestões de leitura conjunta para os poemas de cada bloco criam um espaço de percepção novo. Mas, o que parece contido, liberta-se num processo de recriação constante; ampliam-se as falas individuais de cada poema, cada um sugerindo um encontro com os demais, dentro ou fora de cada bloco, num sem fim de ricas associações.
[Edmar Monteiro Filho, sobre Clusters. A Tribuna, 2015.]

__São termos — fragmento, saturação — que poderíamos levar à poesia de Pedro Marques, autor de Clusters (Ateliê, 2010) , com seus poemas sobre multidões, labirintos e a menção a inúmeros personagens: de Nietzsche, Adoniran Barbosa até o cantor Latino, desierarquizando, como o faz Érico, esses lugares de nossa cultura, porém também problematizando esse mesmo gesto crítico, autoconsciente, do corte e da perda da unidade. Gesto crítico dirigido a um leitor perdido no labirinto no poema “Wille zur Wahrheit” — e que, noutro poema, intitulado “Internética”, se tornaria a própria busca melancólica do eu lírico.
[Pablo Simpson, sobre Clusters. A poesia e a crítica – ABRALIC, 2015.]

__Música estropiada de punks derrotados, gargarejo de galinhas caducas, mas música renitente. Senão não é lirismo: será propaganda de felicidade em quarenta prestações. Dezoito anos depois, o absurdo em cena: cacofonia de vozes que se entrechocam na página, que digladiam, se misturam, se queimam, sem redenção (sem rendição) possível. O circo da rua. Outro título possível? O circo em chamas do cotidiano estúpido que insiste em nos manter despertos. Que as crianças adormeçam. Que acordem os homens.
[Marco Catalão, quarta capa de Cena Absurdo, 2016.]

__Um aspecto que atravessa todos os poemas e que parece garantir uma certa unidade a eles é justamente a denúncia da hipocrisia, do contraditório, da incongruência, que se fazem revelar nas cenas mais corriqueiras: aí reside o desabrochar do absurdo que passa despercebido quando nele estamos inseridos. Esses elementos se fazem revelar nos poemas por uma estratégia narrativa que parece ser comum a eles, capaz de introduzir uma espécie de reviravolta por meio de um elemento que nos pega de surpresa e que aponta para um momento de inflexão, que provoca algo próximo do que seria a anagnorisis, o processo de reconhecimento do elemento (absurdo) que estava presente, mas que não era visto, a verdade encoberta.
[Luís Fernando Prado Telles, posfácio de Cena Absurdo, 2016.]

__Cena Absurdo é um conjunto de poemas que retratam a realidade humana, em tom seco e cortante. Utilizando-se de fragmentos de cenas cotidianas, o poeta constrói textos que remetem a diferentes contextos da nossa cultura, desde o mais popular ao mais elitizado. Quando os leio, me sinto uma observadora do mundo que enxerga o trágico através de lentes que fundem o superficial e o perverso, elementos tão característicos do nosso tempo. Um diferencial da poesia de Pedro Marques é a
simplicidade da linguagem que torna os textos apreensíveis à maioria dos leitores.
[Cida Sepúlveda, sobre Cena Absurdo. Carta Campinas, 2016.]

__Assim, capturado pelo engenho criativo do poeta, o leitor salta da percepção de referências soltas para uma compreensão amplificada, que esgarça as possibilidades de leitura até o absurdo, o surreal. Não fosse tão rico esse espectro que “Cena Absurdo” oferece, Pedro Marques vai ainda além, adicionando novas camadas de fruição para os textos, através dos “clusters sonoros”. Trata-se de interpretações simultâneas de alguns dos poemas ou de partes deles – a cargo de Juliana Amaral, Gustavo Bonin e Micael Antunes – entremeados por intervenções de ruídos e outros requintes, que estão disponíveis através do site www.cenaabsurdo.com.br ou através
de QRCodes espalhados pelo livro.
[Edmar Monteiro Filho, sobre Cena Absurdo. A Tribuna, 2017.]

__Os procedimentos da sátira tradicional, como a ridicularização de personagens e a comparação de coisas desiguais se complexificam. Multiplicam-se enunciações do agora punk-sátiro, como se denomina o poeta. Oferecem a esses textos atualidade e dinamismo, como se estivéssemos, por vezes, no fluxo de uma rede como o Twitter, mencionada na primeira parte do livro, com toda a violência do discurso político de nossos tempos. Aqui, em Encurralada, ainda mais violentos. É esse lugar que ajuda a compreender o truncamento proposital da linguagem em Pedro Marques, truncamento e jogo, não das frases em si, geralmente simples, mas da operação que pulveriza os discursos, desloca-os, colocando-os uns contra os outros.
[Pablo Simpson, sobre Encurralada. Revista Caliban, 2021.]

__Bem sabemos: há muitos modos de (re)contar a história do Brasil. Mas, em todas elas, é fundamental lembrar que este país nasceu da invenção portuguesa: commodity land, terra do pau-brasil, onde ficam os brasis, os nascidos aquém (ou além-mar) em relação ao Reino, ao Império, ao Desgoverno. Saques & Sacanagens diz isso e muito além disso, pois é, essencialmente, paródia e síntese de eras. Trata-se de obra aguda de um professor de literatura(s) que convive com a música, domina o verso e sabe, como poucos, que contar histórias também é um modo de agradar o Papa, o Rei e o exército de súditos. Ao eleger a paródia como matriz, substância e estilo, Pedro Marques sugere que as raízes de outrora persistiram na canhestra corte brasileira e seguiram, ainda mais capengas, durante a Velha e a Nova Repúblicas. Digamos: um passeio mordaz entre o senhor de engenho e o barão do café; entre o colonizador e o neo-colonizador; entre o capitão-geral e o caudilho mitômano de nossos dias. Não bastassem as palavras, que tantos significados aduzem e concentram, ainda há o diálogo entre o verso e a ilustração de Paulo Ito, intérprete pela imagem. Será o riso antídoto? Sem dúvida. Suspeito fortemente: desde que este livro aparecer será incontornável obra de arte(s).
[Jean Pierre Chauvin, sobre Saques & Sacanagens, de Pedro Marques, ilustrado por Paulo Ito. Site Editacuja, 2021.]

__O que pensar de um livro que reúne versos e desenhos cômico-sérios e que recobra, na epígrafe, uma série de verbos do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa que remete a variações do gesto de apropriar-se de algo pertencente a outrem, como furto e rapina? De versos que emulam autores do século XV em diante para dizer o que não disseram a partir de predicados e recursos estilísticos que empregaram? De uma obra que integra a Coleção Caravela se principia parodiando carta que Pero Vaz de Caminha despachou para El-Rey D. Manuel I, O Venturoso, em 1500? Que incorpora, nesta missiva, versos que seriam consagrados setenta e dois anos depois, com a epopeia lusíada? E tudo para justapor ao tom cortesão e discreto da epístola elementos libertinos capazes de fazer corar o catolicíssimo e nobre destinatário? Como lidar com um sermão do padre Antônio Vieira que, com seu estalo divino e barroco, antevê com precisão tão cirúrgica quanto a máscara do duque de Caxias os efeitos do celular, do crediário e do Coach?
[Cleber Vinicius do Amaral Felipe. Resenha sobre Saques & Sacanagens, de Pedro Marques, ilustrado por Paulo Ito. Revista Cadernos Acadêmicos: conexões literárias, 2021.]

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