381º Poema da Semana | 23mar2026

Onde o filho chora e a mãe não ouve

(…) Até que ponto não fomos cúmplices disto, nós da esquerda? Até que ponto não somos simetricamente injustos para aqueles que não pertencem ao mercado de trabalho, que não são trabalhadores reais ou em potencial? Nunca nos comovemos de fato com o Esquadrão da Morte – as misérias e torturas que se passavam nos porões da polícia comum eram apenas injustiças que iam desaparecer com o socialismo. Marginal não dá voto, marginal não faz greve. A violência a que era submetido o preso comum não foi discutida em detalhe, não foi analisada minuciosamente. Não estaríamos reproduzindo em relação a eles aquele mesmo mal-estar, aquela mesma pressa de encerrar o assunto que era comum nas classes médias, quando se falava de tortura aos presos políticos? Tudo isso ia se revelando dolorosamente lógico. Era lógico que fizessem isso no Brasil, pois até a esquerda, até a oposição pareciam bastante insensíveis para esta dimensão da violência. As táticas e os programas são para as classes sociais. Os marginais eram desclassificados: fogo neles. Pois é: não é a polícia brasileira que é violenta. Nós somos violentos. Há uma parte nossa que espera lugar no museu de horrores da humanidade. (…)

*Fernando Gabeira_1941-_O que é isso companheiro?_1979