360º Poema da Semana | 24mar2025

cartografia 22

26.2.2020

Meu canto mora na beira do precipício.
Ali, na linha tênue que separa meu corpo do ar, meus pés
do desfiladeiro, meu umbigo da morte, eu quero a minha voz.
No risco.
No assombro.
No alívio.
Eu habito entre margens: a memória do que eu fui, a saudade
do que eu não fiz, meu coração-cavalo-sem-domar, minha
pele fina e fácil, dia-mantes, tristeza e as tantas linhas
bifurcadas impercorridas que vão se desmanchando
em varizes, hematomas, estrias, enxaquecas.
Meu corpo está apavorado e paciente. Aprendi recentemente
a caminhar nos seus escuros invisíveis de um jeito tão novo
e generoso que ainda me assusto quando chego perto de
escutar o que eu ainda não vivi.
Sim. Do fundo da noite partiu minha voz: e é deste escuro
que quero ver brotar a palavra.

*Juliana Amaral_1973-_Cartografia: ou um corpo que res/existe_2024