cartografia 22
26.2.2020
Meu canto mora na beira do precipício.
Ali, na linha tênue que separa meu corpo do ar, meus pés
do desfiladeiro, meu umbigo da morte, eu quero a minha voz.
No risco.
No assombro.
No alívio.
Eu habito entre margens: a memória do que eu fui, a saudade
do que eu não fiz, meu coração-cavalo-sem-domar, minha
pele fina e fácil, dia-mantes, tristeza e as tantas linhas
bifurcadas impercorridas que vão se desmanchando
em varizes, hematomas, estrias, enxaquecas.
Meu corpo está apavorado e paciente. Aprendi recentemente
a caminhar nos seus escuros invisíveis de um jeito tão novo
e generoso que ainda me assusto quando chego perto de
escutar o que eu ainda não vivi.
Sim. Do fundo da noite partiu minha voz: e é deste escuro
que quero ver brotar a palavra.
*Juliana Amaral_1973-_Cartografia: ou um corpo que res/existe_2024