358º Poema da Semana | 10mar2025

A novidade

Não foi sem assombro que me dei conta de sua presença. Se eles apareceram de repente, de uma vez, não sei, mas suponho que sim, que eu mesma, de alguma forma, provocara sua aparição e, embora me entregasse ao ritual da contemplação quase todos os dias, demorei para notá-los – era cedo para que estivessem ali. Mesmo ainda sendo poucos, por causa de seu brilho grisalho e irritante começavam a aparecer mais que os outros, conferindo-me um ar de senilidade que eu não quero, não ainda. À noite, quando a casa dormia, eu ia para o banheiro, sofreando-me diante daquele imenso jogo de espelhos que destoava dentro do cubículo. Era mesmo uma corrida que se interrompia bruscamente diante do altar erigido para que os desocupados pudessem ver o seu deus: feiúras do corpo e da alma cujo conserto eu adiava para o futuro, achando que haveria tempo, até que esses fios brancos surgiram, oráculos verdugos, como para me lembrar: veio o futuro. (…)

*Leila Guenther_1976-_O voo noturno das galinhas_2006