356º Poema da Semana | 24fev2025

Metamorfose

No meio da praça, no centro desta cidade sem litoral, cria-se o mar. Corre o pensamento caudaloso, a saliva plena. Rodeado por janelas coloniais: estou argonauta. A água dos beirais ondula nos vidros. Rápido ficam nítidas as ondas sobre o pedregal das ruas. Repousam próximos os navios das montanhas. E os pássaros lanceiam sobre a face líquida. Torção espumosa no ar: as águas correm, voltam, cortam as esquinas. Mesmo as pontas das casas se armam com o movimento das barbatanas. Movem-se cardumes nos telhados.

*Fernando Paixão_1955-_Palavra e rosto_2010