a coisa em família
a coisa ficou trancada na boca das mais velhas
até que as mais velhas morreram
e a coisa começou a esticar, mover-se até
se esgueirar pra
fora
começou assim: a avó soube da coisa
em família de sua família
outra casa
a avó levou a coisa pra casa do genro
pra onde levou sua cama de viúva
suas fotografias, seu armário
e a coisa virou sua casa
manteve a coisa, penteou a coisa, vestiu a coisa
ali a coisa cresceu e passou pra filha
que a alimentou em segredo
passou pra neta
que nunca falou disso
passou pro neto
que jamais mencionou a coisa
passou pra outra neta
que nunca soube de nada
a coisa ficou ali
no silêncio
morou no ar e nas pessoas
entrou pelos orifícios todos
virou medo e medrou outras coisas
agigantou-se discreta
e comeu dentro
todos os peitos
a coisa fez as pessoas
mas ninguém comeu a coisa
nem mastigou nem triturou
coisa nunca em bile vista
coisa em riste mas oculta
a coisa desencaixou tudo
definiu cada membro
quem percebeu não se importou
disfarçou desconcerto
calou a coisa e seguiu
agora a coisa no interior das pessoas
não é mais a coisa
é outra coisa
dentro
quem sabe o que será da coisa?
*Ana Cláudia Ribeiro Romano_1974-_O fragmento 31 de Safo e outros poemas_2023